Segue um dos artigos produzidos por mim na pesquisa sobre vozes silenciadas na dramaturgia latino-americana, sob orientação do Professor Dr. Marcos Antônio Alexandre. Projeto de iniciação científica / Fale-UFMG / PROBIC/FAPEMIG.
VOZES SILENCIADAS EM LA BALSA:
Uma análise do texto dramatúrgico de Eugenio Hernández Espinosa
Marcus Vinícius Souza (UFMG)
Orientador: Marcos Antônio Alexandre
Polito: O que há por detrás dessa máscara? Deixa-me ver teu rosto, anda. Deixa-me vê-lo.
(ESPINOSA, 2006, p. 339)[1]
Em 1492, tempo das grandes navegações europeias, o espanhol Cristóvão Colombo ancorava numa ilha tropical povoada por povos indígenas. Esta ilha, chamada hoje de República de Cuba, só deixou de pertencer ao Reino da Espanha no ano de 1868. Independente, passou a ser influenciada pelo Estado Americano até a Revolução Cubana, quando o país toma rumos socialistas. Hoje, Cuba tem cerca de onze milhões de pessoas e se destaca pelo baixíssimo índice de analfabetismo e mortalidade infantil. No entanto, como nos demais países latino-americanos, desigualdades e exclusões sociais são fortes problemas enfrentados pela sua população. Cuba, em particular, apresenta características que ampliam as reflexões sobre estes problemas: o regime socialista fechado e sua condição geográfica de ilha, destacada ainda pelo embargo econômico dos Estados Unidos ao país.
A constante imigração clandestina de cubanos para os Estados Unidos tem sido uma realidade da ilha socialista desde as últimas décadas do século XX. As imigrações, quase sempre, acontecem sob risco de vida dos próprios imigrantes. Como é o caso das travessias marítimas feitas em precárias embarcações – lotadas, sem segurança dos passageiros, sem condições mínimas de enfrentamento dos perigos do mar e da chuva.
Eugenio Hernández Espinosa, um dos dramaturgos contemporâneos mais importantes de Cuba, escreveu, em 1994, a peça “La Balsa”: nove cidadãos cubanos seguem, numa balsa, destino a Base de Guantánamo, a fim de lá seguirem para terras americanas. No meio da viagem o motor da embarcação pára de funcionar e todos ficam à deriva no mar. A situação se torna insustentável quando os alimentos vão se esgotando e tubarões passam a cercar a balsa.
Hernández Espinosa se utiliza dessa situação dramática para expressar as frustrações e sonhos de vários sujeitos cubanos e, por sua vez, debater o regime político e econômico de seu país e suas consequências, bem como expor os preconceitos étnicos, religiosos e de gênero presentes na sociedade cubana através das relações que os personagens vão estabelecendo ao longo da travessia que não se finda.
A peça inicia-se com quase todos os personagens já na balsa, aguardando um passageiro atrasado. Ali estão: o capitão Alfonso, homem que vive de fazer essas viagens clandestinas; Sadkiel, um jovem ex-professor que acaba se apaixonando e se relacionando com outra passageira, Diudi, filóloga, negra, de vinte e seis anos; Isabel, mulher de trinta e dois anos que embarca com sua filha, Ocneria, uma menina de sete anos que se mantém calada durante toda a viagem; Andrés, cinquenta anos, ex-médico cirurgião e ex-professor; Gertrudes, uma idosa cristã que embarca em uma cadeira de rodas; Polito, um engenheiro mecânico, negro, de trinta e dois anos; e por fim, aquele que todos esperavam para seguir viagem: o Senhor Anônimo.
Já no início da peça “La Balsa” uma questão é lançada ao leitor/espectador que é, desde então, o primeiro e grande mote para as reflexões sobre a sociedade cubana: Por que os personagens querem sair de seu país? Quais são suas inquietações e seus planos?
Sadkiel (Depois de um silêncio. Filosófico, angustiado): Às vezes me pergunto se esta viagem se junta às condições históricas que vivemos ou é simplesmente um impulso frívolo, ou um desencargo desesperado da nossa impotência. Que vamos buscar lá? A segurança econômica? O reconhecimento social? O quê? (ESPINOSA, 2006, p. 278)[2]
A viagem se inicia com despedidas da terra natal. O Capitão da balsa pede que todos olhem pela última vez a terra firme, mas a maioria dos personagens parece querer estar cada vez mais longe dali. Guardam raivas e desilusões. Culpam o próprio país pela maneira clandestina e cruel que o estão abandonando. Sentem-se negligenciados pelo governo. Questionam a ordem socialista. Estas assertivas podem ser corroboradas a partir das falas das seguintes personagens:
Gertrudes: E esse último tripulante é tão importante para arriscarmos? Não se dá conta de que se dei este passo é porque não suporto nem um segundo mais neste país? Me asfixia! (ESPINOSA, 2006, p. 277)[3]
Gertrudes: (…) Nunca pensei em sair do meu país de forma tão brutal e mesquinha, como uma vulgar delinquente. (ibidem, p. 278)[4]
Polito: Adeus socialismo querido, meu irmão, meu companheiro (…) Não nos compreendemos, meu caro, o que se vai fazer! (ibidem, p. 290)[5]
Quando Sadkiel pergunta aos outros passageiros, como que expressando seus medos e ansiedades, o que todos vão buscar no lugar de destino, o Doutor responde: “Algo! Algo que não encontramos nem encontraremos aqui!.” (ESPINOSA, 2006, 275)[6] .
O que se evidencia é que são personagens de distintas classes sociais, etnias, gêneros e idades. No entanto, o que os une nessa balsa é um sentimento de descontentamento com a pátria. Mais que descontentes, sentem-se excluídos. Mesmo o personagem Anônimo que apresenta discursos comunistas, vê seu país em estado decadente, como se o socialismo cubano fosse uma velha avó morta com a qual seu povo desfila.
A exclusão que Hernández Espinosa retrata, através dos discursos de seus personagens, faz referência à falta de identidade do povo cubano, particularmente nos tempos atuais. O sujeito pós-moderno é aquele que não possui uma identidade unificada, completa, segura e coerente. Pelo contrário, ela é cambiante e contraditória, dados todos os fatores da pós-modernidade, dentre eles a globalização (HALL, 2006). Pode-se imaginar, portanto, as contradições vividas por sujeitos que vivem num sistema socialista, e, ao mesmo tempo, com fundamentos capitalistas disseminados pelo seu entorno. Mais ainda, é possível vislumbrar as ansiedades e descontentamentos de um povo que vive o socialismo em tempos do fim das metanarrativas (LYOTARD, 2008), dentre elas o marxismo. O que Hernández Espinosa traz à cena é um grupo de pessoas (que representam diversas partes da sociedade cubana) que não se sentem participantes ou apoiadores dos modos de vida de seu país, mas é compelido a compartilhá-lo. Essa assertiva pode ser corroborada, entre outras passagens, pelo discurso do personagem “Capitão: Desculpem; mas seus relógios estão como suas vidas. Nada coincide com nada, (…)” (ESPINOSA, 2006, p. 277)[7]
Para Lena Lavinas, exclusão social se diferencia de pobreza por apresentar fatores subjetivos, como o indivíduo que não se dá mais seu valor de indivíduo frente à sua comunidade. É o caso dos personagens de “La Balsa” que não veem motivos para continuar em Cuba, mesmo aqueles que parecem possuir condições econômicas favoráveis.
Ao contrário da pobreza absoluta, que se sustenta em critérios objetivos, tais como falta de renda, falta de moradia, falta de capital humano, falar de exclusão implica considerar também aspectos subjetivos, que mobilizam sentimentos de rejeição, perda de identidade, falência dos laços comunitários e sociais, resultando numa retração das redes de sociabilidade, com quebra dos mecanismos de solidariedade e reciprocidade. A exclusão aparece menos como um estado de carência do que como um percurso, uma trajetória ao longo da qual, à insuficiência de renda e à falta de recursos diversos somam-se desvantagens acumuladas de forma quase constante, processos de dessocialização ocasionados por rupturas, situações de desvalorização social advindas da perda de status social [déclassement social, como propõe Thomas] e da redução drástica das oportunidades, e onde as chances de ressocialização tendem a ser decrescentes. (LAVINAS, 2002, p. 37)
Em “La Balsa”, a tensão toma conta dos personagens quando o motor da embarcação não funciona mais. É quando o Senhor Anônimo mostra-se de posse de uma arma e, de maneira autoritária, toma a balsa sob seu comando. A partir de então, a situação torna-se pior: tubarões ao redor da embarcação, momentos de histeria e alucinação coletiva, conflitos por poderes (detenção da comida, liderança nos rumos do barco etc.). Por várias vezes, a situação da balsa parece uma metáfora da situação de Cuba, ou, pelo menos, da Cuba enxergada pelos personagens de “La Balsa”. Um tirano usando de força armada para comando e instauração de regras no barco; as condições difíceis de sobrevivência (água, comida, calor); o desejo de estar em outro lugar enquanto se está rodeado por um cenário sem perspectivas; os animais ameaçadores no entorno e a falta de instrumentos para eliminá-los.
Hernández Espinosa coloca seus personagens em estado limite. Ali, todos são iguais entre si, correm os mesmos riscos. Mais ainda, não estão diante de um governo a quem precisam responder por suas ações. Assim, o dramaturgo elabora uma situação dramática onde podem falar os excluídos, os silenciados: “Capitão: (…) Não tenham medo. A despedida, nesta ocasião, não será transmitida nem por rádio, nem por televisão, e, por razões óbvias, nem gravadas. Deixem a paranóia para trás. Os oprimidos e condenados podem falar, com confiança.” (ESPINOSA, 2006, p. 288)[8]
Segundo Eni Puccinelli Orlandi, há duas formas de silêncio: o silêncio fundador e o silenciamento. O primeiro caracteriza-se por ser aquele que não é traduzido por palavras, ele é em si mesmo; o silêncio fundador é “horizonte” e não falta, é a própria condição da produção de sentido, é fundante. Já o silenciamento é um recorte do dizer, é a produção de um corte entre o que se diz e o que não se diz. O silenciamento ainda se subdivide nas seguintes partes que se complementam: o silêncio constitutivo, onde se diz X para não (deixar) dizer Y (Todo dizer cala alguma coisa); e o silêncio local, interdição do dizer, a censura, produção do proibido.
A censura tal como a definimos é a interdição da inscrição do sujeito em formações discursivas determinadas, isto é, proíbem-se certos sentidos porque se impede o sujeito de ocupar certos lugares, certas posições. Se se considera que o dizível define-se pelo conjunto de formações discursivas em suas relações, a censura intervém a cada vez que se impede o sujeito de circular em certas regiões determinadas pelas suas diferentes posições. (ORLANDI, 2007, p. 104)
Aqui tratamos do silenciamento. As personagens de Hernández Espinosa estão excluídas porque estão (são) silenciadas. O que não significa que estão caladas. Mas deixando seus discursos em obediência a outro. Suas vozes “verdadeiras” só se fazem ouvir numa balsa em alto-mar, onde não há a regularização do dizer. Onde elas podem contestar e reclamar dos modos operantes de seu país, sustentar um discurso que não é o mesmo da política oficial.
O Senhor Anônimo: Às vezes, não se pode dizer se um daqueles é um animal por si ou é toda uma colônia de animais onde os que a compõem desempenham as funções de um órgão. Tão intimamente estão ligadas às necessidades de cada um aos demais, sendo submetidas à existência da coletividade, que chegam a perder inclusive sua forma e sua independência. (ESPINOSA, 2006, p. 307)[9]
A partir do instante em que o silenciamento se apresenta, recolhe-se a identidade, a alteridade, a individualidade. Evidencia-se então a inerente relação entre a censura e os aspectos subjetivos que caracterizam a exclusão social. Como afirma Orlandi (2007, p. 104), “Como a identidade é um movimento, afeta-se assim esse movimento. Desse modo, impede-se que o sujeito, na relação com o dizível, identifique-se com certas regiões do dizer pelas quais ele se representa como (socialmente) responsável, como autor.” E ainda:
O silêncio não é ausência de palavras. Impor o silêncio não é calar o interlocutor, mas impedi-lo de sustentar outro discurso. Em condições dada, fala-se para não dizer (ou não permitir que se digam) coisas que podem causar rupturas significativas na relação de sentidos. As palavras vêm carregadas de silêncio(s). (ORLANDI, 2007, p. 102)
Em “La Balsa” podemos ouvir as vozes, ideias e opiniões que outrora se faziam silenciadas:
Isabel: (…) Por isso saí desse país de merda onde todo mundo se mete com todo mundo e torna a vida um iogurte de todo mundo. (ESPINOSA, 2006, p. 297)[10]
Polito: Se a coisa segue como vai, e não fecham as portas, esta bela ilha vai voltar a ser como quando Cristóvão Colombo a descobriu. (Ri tontamente. Transição. Filosófico.) Quando eu digo: “Estamos participando de um fim sem final.” E você não vai, companheiro? (ibidem, p. 274)[11]
Diudi: Tranquilos? Mas então você não compreende o risco que significa permanecermos aqui, ainda que seja por segundos, neste país, onde as leis, medidas e revoluções mudam por frações de segundo? (ibidem, p. 275)[12]
Capitão: (…) Neste país qualquer um é deliquente, qualquer um é ilegal. Por acaso isso que estamos fazendo não é ilegal? É uma ilegalidade legal. Nunca ouviram que “o que em um tempo se proíbe, se faz depois obrigatório”. (ibidem, p. 276)[13]
Isabel: (…) Se alguma vez volto a este país de merda, que seja para limpar-lhe o fundilho com todo o papel higiênico do mundo. (Desfaz-se em soluços.) (ibidem, p. 289)[14]
Em dado momento, Polito expressa o silenciamento que lhe é imposto:
Capitão: Mas não tome luta com eles, que comparados com o comunismo são sardinhas em latas. Se você não se mete com o tubarão, não há problema. Mas com o comunismo, como quer que se ponha, tens que chorar.
Polito: E “de maneira calada”, meu camarada! (ibidem, p. 295)[15]
Na segunda parte da obra, Hernández Espinosa expõe o desgaste dos personagens, atenuado pela fome e cansaço. É nesse contexto que eles vão mostrando traços racistas e preconceituosos entre os personagens e da própria sociedade cubana. Bem como suas contradições e conflitos morais. Polito e Diudi são frequentemente chamados por expressões pejorativas quanto à sua etnia; Diudi é vista como “prostituta” por viver um relacionamento afetivo com Sadkiel na balsa; o Doutor Andrés conta ter sido expulso de seu cargo profissional por ter tido relações homossexuais com um de seus alunos da Universidade; Polito fala da violência a que era sujeitado em Cuba por seu trabalho ilegal; Gertrudes, que aparenta prezar por valores morais e cristãos, é a mais preconceituosa e intolerante, além de ser a que mais torna descartável a vida dos demais navegantes e mente sobre seu estado de invalidez em prol de privilégios pessoais. Hernández aponta traços de identidade e personalidade escondidos sob máscaras de uma sociedade ainda cheia de antigos preconceitos e moralidades. Aponta, sobretudo, suas contradições. Como exemplo, uma sociedade que sob olhar colonialista europeu vê ainda o negro como inferior ao branco, quando sua própria constituição identitária se dá em grande parte por elementos da cultura negra africana.
Diante das dificuldades em alto-mar e das desesperanças, os personagens vão pouco a pouco morrendo. O Capitão é executado por Polito, a mando do Senhor Anônimo, após roubar um pouco de comida. Sadkiel e Diudi se lançam ao mar. Ela, após um grande sangramento menstrual, chama a atenção dos tubarões que passam a balançar a balsa atrás de alimento. Para que isso não ameace a sobrevivência do grupo, ela se suicida. Sadkiel expressa sua dor em perdê-la, explica que com ela aprendeu o cuidado e a atenção ao outro, reclama da indiferença que devora o homem nos tempos de hoje. Também termina se jogando ao oceano. Polito também se joga após alucinações e a incorporação de Yemayá. O personagem nos remete a força da religião e do sincretismo na cultura cubana, onde se encontra a Santería, que combina elementos cristãos com crenças da África ocidental. Quando Hernández Espinosa traz a incorporação de um orixá por um de seus personagens em seu momento final, ele evoca na balsa a identidade do povo cubano, onde não poderia deixar de mencionar a presença do elemento espiritual e ritualístico. Após o suicídio de Polito, Isabel morre de dor após inflamações no apêndice. O doutor, frustrado por não conseguir salvá-la, também se lança ao oceano.
Estão na balsa nos últimos momentos da peça a velha Gertrudes, o Senhor Anônimo e a menina Ocneria. Após um grande confronto, o Senhor Anônimo mata Gertrudes e se suicida lançando-se ao mar.
Por fim, resta a menina Ocneria na balsa e “o céu de um azul celeste intenso”. Símbolo de esperança para o povo cubano, a voz da menina que termina por cantarolar “Hay sol Bueno…”, trechos do poema de José Martí, finalmente se junta a de outras crianças. Ocneria era a menina muda, que agora tem voz.
Sua representação icônica ultrapassa o plano da memória pessoal para assumir a coletiva. A voz, a suposta chegada da criança à “terra prometida” – espaço representacional de uma possível concretização das utopias pessoais e coletivas –, e os versos martinianos são, sem dúvida, um desejo de encontro com o desconhecido. Talvez, quem sabe, uma aporia que não tem por que ser filosoficamente elucidada. (ALEXANDRE, 2008, p. 152)
Hernández Espinosa dá voz à menina em contraponto a todos os outros personagens antes silenciados pela própria pátria, agora em silêncio porque estão mortos. A menina é a esperança do discurso livre e aberto, da possibilidade de um sujeito se afirmar pela língua, da construção de um país que seja formado por todas as vozes de seus habitantes, sem exclusão.
O discurso dos personagens aqui tratados é o discurso da resistência, é o silêncio do oprimido, daqueles que se opõem ao poder. E o que o silenciamento faz é “(…) “tomar” a palavra, “tirar” a palavra, obrigar a dizer, fazer calar, silenciar etc.” (ORLANDI, 2007, p. 29).
Para corroborar a leitura aqui empreendida, acreditamos que “La Balsa” representa, ainda, dentro do contexto atual cubano, um discurso contra o silenciamento. Hernández Espinosa traz à tona as problemáticas e contradições de seu Estado, contribuindo para que sejam discutidas. Talvez por colocar em cheque os aspectos do socialismo, a realidade cotidiana dos cubanos (bem como seus valores morais e éticos), o texto ainda não tenha sido apresentado em nenhum Teatro do país.
A dramaturgia de Hernández Espinosa é de resistência, expõe a margem e seus moradores; mostra e problematiza a voz dos silenciados e do silenciador, ainda que esse aspecto assuma um caráter metafórico ou simbólico. Através do texto é possível elaborar embrionários pensamentos a respeito de como se dão as formações discursivas, sob a perspectiva de Pêcheux[16], num estado socialista, onde, supostamente, não há divisão de classes (quem determina o que pode e o que deve ser dito?); o silenciamento como causa e consequência da exclusão social (como num círculo contínuo onde se é calado para estar à margem e, depois, por estar à margem); a exclusão social como perda de subjetividades dos indivíduos (subjetividades estas tão importantes para a construção de uma nação justa e humanitária).
“La Balsa” é um texto que nos leva a alto-mar, isola-nos junto com seus personagens, para denunciar o que, na verdade, se passa em solo firme, agora.
Sadkiel: (Muito triste, lagrimoso, de cara para a ilha que se distancia lentamente) “Me distanciava em silêncio daquela terra adorada e funesta, e sentado na proa da débil embarcação, não podia discernir meus sentimentos: Meus olhos se fixavam alternativamente sobre a cidade onde choravam por mim tantos objetos queridos”. (Entre soluços entrecortados.) “Mais de uma vez me senti tentado a jogar-me ao mar, e acabar com minha vida, e creio que somente o que me conteve foi a ideia de morrer sem vingança” (Não pode mais, rompe sua alma em soluços.) (ESPINOSA, 2006, p. 289)[17]
Referências:
ALEXANDRE, Marcos Antônio. O negro e a cultura afrodescendente na dramaturgia cubana. In: Aletria: Revista de Estudos de Literatura – Artes e Culturas de Expressão Hispânica, v. 17. Belo Horizonte: PÓS-LIT – FALE/UFMG, jan./jun. 2008. p. 141-153. (versão online: http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/publicacao002116%28A17%29.html)
BRANDÃO, Helena H. Nagamine. Introdução à análise do discurso. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.
ESPINOSA, Eugenio Hernández. Teatro Escogido: Tomo II. Habana: Letras Cubanas, 2006.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
LAVINAS, Lena. Pobreza e exclusão: traduções regionais de duas categorias da prática. In: Revista Econômica, v.4. Niterói: Pós Graduação em Economia da UFF. 2002. p. 25-60. (versão online: http://www.uff.br/revistaeconomica/v4n1/lavinas.pdf)
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008.
ORLANDI, Eni Puccinelli. As formas do silêncio: no movimento dos sentidos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
[1] Polito: ¿Qué hay detrás de esa máscara? Déjame ver tu rosto, anda. Déjame verlo. Todas as traduções dos trechos de Espinosa são de minha responsabilidade. (Todas as traduções contidas no corpo deste trabalho são de minha responsabilidade.)
[2] Sadkiel: (Después de un silencio. Filosófico, angustiado) A veces me pregunto si esta huida se atiene a las condiciones históricas que nos ha tocado vivir o es simplemente un impulso frívolo, o un desenfreno desesperado de nuestra impotencia. ¿Qué vamos a buscar allá? ¿La seguridad económica? ¿El reconocimiento social? ¿Qué?
[3] Gertrudes: ¿Y ese último tripulante es tan importante como para arriesgarnos? ¿No se da cuenta que si he dado este paso es porque no soporto ni un segundo más a este país? ¡Me asfixia!
[4] Gertrudes: (…) Nunca pensé irme de mi país de esta forma tan brutal y mezquina, como una vulgar delincuente.
[5] Polito: (…) ¡Adiós, socialismo querido, mi hermano, mi compañero, (…). No nos comprendimos, asere, ¡qué se va a hacer!
[6] El Doctor: ¡Algo! Algo que no encontramos ni encontraremos aquí. (…)
[7] El Capitán: Disculpen; pero sus relojes están como sus vidas. Nadie coincide con nadie (…)
[8] El Capitán: (…) No tengan miedo. La despedida, en esta ocasión, no será transmitida ni por radio, ni por televisión, por supuesto, obvian razones, ni grabadas. Dejen la paranoia atrás. Los oprimidos y condenados pueden hablar, con confianza.
[9] El Señor Anónimo: A veces no se puede decir si uno de ésos es un animal de por sí o es toda una colonia de animales en la que los que la componen sólo desempeñan las funciones de un órgano. Tan íntimamente están ligadas las necesidades de cada uno a las demás, y se hallan sometidas a la existencia de la colectividad, que llegan a perder incluso su forma y su independencia.
[10] Isabel: (…) Por eso me fui de ese país de mierda donde todo el mundo se mete con todo el mundo y le hace la vida un yogurt a todo el mundo. (…)
[11] Polito: Si la cosa sigue como va, y no cierran las compuertas, esta hermosa Isla se va a quedar como cuando Cristóbal Colón la descubrió. (Ríe tontamente. Transición. Filosófico.) Cuando yo lo digo: “Estamos participando en un fin sin final.” ¿Y tú no te vas, consorte?
[12] Diudi: ¿Tranquilitos? ¿Pero todavía usted no comprende el riesgo que significa quedarnos aquí, aunque sean segundos, en este país, donde las leyes, medidas y resoluciones cambian por fracciones de segundo? (ibidem, p.275)
[13] El Capitán: (…). En este país cualquiera es delincuente; cualquiera es ilegal. ¿Acaso esto que estamos haciendo no es legal? Lo que es una ilegalidad legal. No olviden que “lo que en un tiempo se prohíbe, se hace después obligatorio”.
[14] Isabel: (…) Si es que alguna vez regreso a este país de mierda, que sea para limpiarle el fondillo con todo el papel higiénico del mundo. (Se deshace en sollozos.)
[15] El Capitán: Pero no coja lucha con ellos, que comparados con el comunismo son sardinas en latas. El tiburón si usted no se mete con ellos no hay tema. Pero el comunismo como quiera que te pongas tienes que llorar.
Polito: ¡Y de qué “callada manera”, consorte!
[16] São as formações discursivas que, em uma formação ideológica específica e levando em conta uma relação de classe, determinam “o que pode e deve ser dito” a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada. (BRANDÃO, 2004, p. 48)
[17] Sadkiel: (Muy triste, compungido, de cara para la Isla que se les aleja lentamente.) “Alejábame en silencio de aquella tierra adorada e funesta, y sentado en la proa de la débil embarcación, no podía discenir mis sentimientos: Mis ojos se fijaban alternativamente sobre la ciudad donde lloraban por mí tantos objetos queridos.” (Entre sollozos entrecortados.) “Más de una vez me sentí tentado a arrojarme al mar, y acabar con mi vida, y creo que sólo me contuvo la idea de morir sin venganza.” (No puede más, se rompe el alma en sollozos.)







